Resumo
O artigo realiza uma análise fenomenológica comparativa da metafísica da brancura, da negrura e do indigenato, articulando Frantz Fanon com a experiência histórica e existencial dos povos indígenas da Amazônia, especialmente os Paiter Suruí. A brancura é entendida como norma invisível e universal, sustentada pela pretensão de neutralidade que transforma diferença em ausência. A negrura é reduzida ao esquematismo epidérmico, aprisionando o sujeito à pele e bloqueando sua temporalidade. Já o indigenato opera como dispositivo de exclusão que infantiliza, tutela e desautoriza cosmologias originárias, legitimando epistemicídios e a expropriação territorial. Dialogando com Césaire, Kilomba, Mbembe, Dussel, Maldonado-Torres, Ribeiro de Almeida e Gondim, o artigo argumenta que esses três dispositivos estruturam uma gramática da colonialidade da plenitude da vida, cujo alcance ultrapassa o plano político-econômico e afeta a constituição do existir. Contudo, a fenomenologia mostra que a negatividade nunca é absoluta: práticas de resistência negra e indígena - oralidade, cantos, línguas preservadas e memória ancestral - abrem fissuras que desestabilizam a lógica do não-ser e projetam formas insurgentes de recomposição do ser. Conclui-se que a análise dessa tríade permite compreender a totalidade do projeto colonial e vislumbrar um humanismo insurgente, não eurocêntrico e enraizado na pluralidade das lutas e cosmologias.
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