Resumo
O problema da igualdade entre homens e mulheres na República de Platão não pode ser resolvido sem enfrentar a passagem 455c–d: tomada literalmente, ela parece afirmar a superioridade masculina precisamente onde o argumento igualitário mais exige consistência. O critério fixado em 454c–d, segundo o qual somente diferenças de natureza relevantes para uma função específica podem justificar a atribuição de funções distintas ou a recusa da educação necessária para desempenhá-las, é precisamente o que a passagem coloca à prova. Argumento que ela funciona como teste dialético: o momento em que Gláucon falha em aplicar esse critério e responde com base no desempenho socialmente observado sob uma educação assimétrica. Rejeitada a leitura literal, torna-se possível enunciar sem concessões o princípio de 454c–d: nenhuma diferença atribuível ao sexo enquanto tal é relevante para as capacidades exigidas pelas funções cívicas. Tampouco comprometem essa conclusão igualitária as objeções fundadas no Timeu, em interpretações que enfatizam diferenças fisiológicas entre os sexos ou na persistência de um vocabulário patriarcal na própria República.
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